“Sou fria, sim. Mas tem muita gente que gosta”

By | September 20, 2012

Clima é a terceira característica da cidade que mais agrada ao curitibano. Em julho de 1975, os Jacobsen moravam no Norte do Paraná quando o pai anunciou que, no fim do ano, a família se mudaria para Curitiba. Dias depois, o Jornal Nacional mostrou cenas da lendária nevada que caiu na capital.

“Sou fria, sim. Mas tem muita gente que gosta”

Os olhos do primogênito Flávio, então com 8 anos, brilharam. “A cidade para onde a gente vai tem neve”, comemorou. Meia-verdade. Desde então, não nevou de novo.

Mas se o primeiro contato com o frio curitibano pela televisão gerou encantamento, nos anos seguintes ele pôde sentir na carne o rigor do inverno da cidade. “Me lembro de ver a Copa do Mundo de 1978 embaixo das cobertas de lã, com o pé embrulhado no jornal”, diz Flávio, que hoje é compositor e publicitário.



Após alguns invernos, ele passou de vítima a acostumado. E, algumas outras massas polares depois, apaixonou-se pelo clima peculiar de Curitiba. “Adoro o frio, mas quase morro com ele. Gosto de curtir ao ar livre, mas tem de ser perto da fogueira, tomando vinho, com cachecol e gorro. Essa é uma das graças da cidade: aqui dá para usar um sobretudo como os bandidos de filme americano.”

Para muitos, a atração pelas baixas temperaturas pode parecer masoquismo. Mas Flávio Jacobsen não está sozinho. O clima curitibano – com seu frio e chuva – é a terceira característica da cidade que mais agrada ao curitibano, de acordo com enquete feita pelo Instituto Paraná Pesquisas com 410 moradores de todas as regiões da cidade.

Quando questionados sobre o que mais gostam em Curitiba, 7,8% dos entrevistados responderam que é o clima. O porcentual pode parecer pequeno, mas é expressivo se for considerado que se trata de uma enquete espontânea, quando o entrevistado diz o primeiro pensamento que lhe vem à cabeça.

A enquete ainda revela que o gosto pelo frio poderia ser melhor aproveitado pelo poder público para satisfazer aos anseios do morador da cidade.

Relação afetiva

A relação afetiva dos curitibanos com o frio é tão antiga quanto o bebedouro do Largo da Ordem. E já deu margem para todo tipo de teorias sobre a influência do tempo na “alma” do povo.

A mais famosa talvez seja a crônica Curitiba, a Fria, escrita em 1967 pelo jornalista e poeta pernambucano Fernando Pessoa Ferreira, que então vivia na cidade. A divertida carta de insultos à cultura curitibana desencadeou uma violenta polêmica na capital à época. Nela, a cidade é assim descrita: “A maior atração turística de Curitiba é o inverno que começa em fevereiro e termina em dezembro. Nos outros meses, chove”.



Para o cronista e escritor Dante Mendonça, a ironia de Ferreira traz uma grande verdade sobre a cidade. Mendonça incluiu a crônica maledicente do colega pernambucano como uma espécie de epígrafe do seu livro Curitiba, Melhores Defeitos Piores Qualidades, lançado em 2010. Nele, Mendonça busca mostrar que o frio é um traço definidor dos usos e costumes locais.

 

Fonte: Jornal Gazeta do Povo